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CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 12

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  O IMPERADOR Sua derradeira imagem, colorizada mediante um processo eletrônico disponível em um site especializado. Rés o chão o piso elevado no pórtico, os degraus que tínhamos que subir, penitentes, para contemplar um milagre técnico, aquele que trazia à vida uma fita plástica com imagens gravadas e as fazia brilhantes em uma tela. Hipnotizados, boquiabertos víamos, em Cinemascope colorido, as extensas pradarias do velho oeste, Sierra Madre e o Grand Canyon; templos gregos e romanos; selvas africanas; estupendos exercícios de Shao-Lin. Em um preto e branco saltitante e mudo, o suplício do Cristo na Sexta-Feira da Paixão... Depois de cruzarmos a sala de acesso, passando sobre um piso de ladrilhos vermelhos antiquíssimos, adentrávamos na grande sala de projeção, ainda iluminada suavemente, a cuja penumbra nos acostumávamos devagar . Nunca víamos os detalhes toscos, claro, para não perdermos o encanto. O piso era de um cimentado liso, a tela pouco luminosa , as cadeiras duras e ...

VEM SENTAR-TE COMIGO, LÍDIA, À BEIRA DO RIO - FERNANDO PESSOA

  Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos). Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em ...

LER RUBEM FONSECA

 Convido com veemência meus leitores para desfrutarmos da obra de Rubem Fonseca. Apenas como um aperitivo publico pequeno trecho de um conto dele, que li meditando, sorrindo e até mesmo gargalhando em alguns momentos. Imperdível! ************************************************** A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro Rubem Fonseca (in Romance Negro e outras histórias) “Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e povo estavam todos pervertidos.” (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro 1862-63) Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas; solvitur ambulando , diz para seus botões. No tempo em que trabalhava na companhia de águas e esgotos ele pensou em abandonar tudo para viver de escrever. Mas...

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 11

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O PETRÓLEO JÁ FOI NOSSO! Um fato histórico ainda muito vivo no imaginário coletivo d os abaeteenses - pelo menos daqueles que nasceram antes da virada do século! - é a chamada “praga das formigas”, que sucedeu ao espancamento de um sacerdote por populares. É uma história cheia de lances curiosos, que não se encerra nas formigas. Durante um bom tempo a cidade ficou sem padres, amaldiçoada que fora pelas autoridades eclesiásticas. Contam que quando algum padre passasse diante de Abaeté a bordo do navio da Linha do Tocantins, deveria, por ordem do arcebispo de Belém, virar-se de costas para estas terras e rogar alguma praga que sua santa mente fosse capaz de obrar naquele instante. Alguns, mais raivosos, decoravam maldições terríveis antes mesmo da viagem, longas e maléficas imprecações a serem vomitadas sobre a terra de Monteiro. Contam que certa vez um padre chegou morto a Cametá, tendo talvez infartado de ira (fúria, como se diz, envenena o coração...) durante a viagem, e entre seus p...

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 10

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  A NAVE DE FLASH GORDON Era a chegada de um novo ônibus. Era o Salvador. Naquele tempo, os ônibus recebiam nomes de cidades brasileiras. Assim, na lendária Empresa São Jorge, havia o Salvador, o Niterói, o Rio de Janeiro, o Petrópolis... Até o pernambucano, que nem era nome de capital, mas alcunha de algum arigó que sonhava com a distante metrópole e com o progresso. Eles estavam felizes, felizes e aliviados, posando garbosos diante do ônibus após a travessa de uma baía medonha, equilibrando o carro sobre o convés de uma barca improvisada. Diz o Bino, o motorista aqui retratado, que ele vinha dentro do carro, colocado de través na barca, acelerando o motor do ônibus a viagem inteira, para manter o sistema de ar-comprimido funcionando, a fim de conservar os freios acionados... Que viagem!!! Contrastando com a vila pobre que se vê ao fundo, está a nave prateada, de alumínio vincado, novo (ou quase...), leveza e aço prontos a singrar as imensidões espaciais. Seria um ônibus banal, m...

O CEMITÉRIO DOS VIVOS

  Ler Lima Barreto é indispensável para compreendermos o Brasil, em qualquer tempo, em qualquer lugar. Abaixo publico o primeiro capítulo de O Cemitério dos Vivos, que li estupefacto. É o olhar de um louco sobre o hospício? Ou é a crítica aguda de um intelectual ao sanatório geral que atende pelo apelido de Brasil?  CAPÍTULO I - O PAVILHÃO E A PINEL 1920 4 de Janeiro      Estou no Hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado. Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia. Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável. Desta vez, não. O enfermeiro antigo era humano e bom; o atual é um português (o outro o era) arrogante, com uma fisionomia bragantina e presumida. Deram-me uma caneca de mate e, logo em seguida, a...

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 9

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  O PIB Certa vez mostrei esta imagem ao amigo Celso Nery. Ele deu um sorriso, examinou mais de perto os personagens e declarou que nela estava quase todo o PIB (Produto Interno Bruto) de Abaeté dos anos 60 e 70. É um animado grupo de empresários com seus amigos e convidados em festiva celebração na praia de Beja, o caribe abaeteense daqueles tempos. Regada a uísque importado e vinho de garrafão (será que era vinho, na terra da cachaça?). Bem… observando com atenção alguns copos, parece haver espuma neles o que pode sugerir a popular cerveja mesmo. E tinha churrasco, pois foi possível ver alguns espetos exibidos com volúpia alcoólica pelos comensais. Curioso como, até os anos 70, os parâmetros para medir a riqueza de alguém estavam restritos a algum ouro pelo corpo (a imagem, infelizmente, não permite ver os dentes em detalhe...), talvez uma Rural Willys e uma Televisão Telefunken (ou RQ Colorado!) de 20 polegadas em preto e branco. Talvez uma radiola Philips também… O ouro é possí...