Postagens

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 13

Imagem
 O GRUPO VELHO DE ABAETÉ Voltemos quase um século.  Retrocedamos a esta imagem, dos anos 30 do século passado, bem no centro da velha Abaeté. O que hoje se chama de Canto do BASA. Foi em um lugar tranquilo como este, que um pouco antes, logo após a virada do século 19 para o 20, foi fundado o grupo escolar de Abaeté. O Grupo escolar, chamado pelos antigos de Grupo Velho de Abaeté, fundado em 1902, aqui aparece retratado em 1908 a mando do governo do Pará. Esse foi um dia especial, um fato incomum na rotina sonolenta daqueles velhos tempos. Claro. A chegada de um retratista em Abaeté era um acontecimento. Todos teriam sido avisados de véspera que o retratista iria fazer a foto. Então, vestiram as melhores roupas, os ternos e os chapéus das ocasiões especiais. Até a organização de todos diante da câmara foi cuidadosamente pensada. As meninas no andar de cima. Embaixo os garotos perfilados e vigiados por um homem de cartola que aparece sinistramente à direita, no fim da fila, com...

Visões na noite

Meu amigo, eu vou lhe contar uma coisa. Se aquele cartaz tivesse caído na estrada depois do acontecido, eu ia passar o resto da vida jurando que tinha visto visagem naquela noite. Faz muito tempo que aconteceu comigo, logo quando abriram a estrada e o caminho para a Colônia deixou de ser só pelo igarapé, que aliás secava no verão e a gente tinha que ir pra lá andando pelo meio da mata. Mas bom. A mata ainda metia medo, mesmo com a estrada e com carro andando nela. Quando escurecia era um breu só. Era costume a gente mandar instalar um holofote de barco em cima do carro, desses de mil e quinhentas velas, que a gente usava pra alumiar a estrada. Aqui, motorista era parece um comandante de regatão no Tocantins, que de vez em quando acendia o holofote pra dar uma olhada, porque só o farol do carro alumiava pouco. No breu da mata a gente via de tudo. Labisonho, Matinta, olho vermelho brilhando no meio da capoeira, Curupira que levava criança que não era batizada; e coisa que a gente não via...

A Igreja

Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do Nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda? (Rubem Fonseca, no conto Copromancia) Tinha chegado uma menina nova no Gigi. Menina cearense fugindo da seca. Coisa fina, quase mocinha, ainda durinha e justa. Minha patroa, coitada, tinha vergonha de fazer aquelas coisas que as raparigas fazem. Também! Criada da missa pro colégio, da sala pra cozinha, malmente tomando um grapete domingo depois da missa, tinha que dar nisso mesmo. Mulher boa tem que fumar, beber com a gente e fazer cabelo, barba e bigode... Quem me falou da menina foi o Gimico. Ele ia sair pra viagem do Amazonas e não podia ir comigo, mas me recomendou pro Gigi. Ele disse assim: Olha Mário, vai lá que a piquenazinha é paid’égua. B...

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 12

Imagem
  O IMPERADOR Sua derradeira imagem, colorizada mediante um processo eletrônico disponível em um site especializado. Rés o chão o piso elevado no pórtico, os degraus que tínhamos que subir, penitentes, para contemplar um milagre técnico, aquele que trazia à vida uma fita plástica com imagens gravadas e as fazia brilhantes em uma tela. Hipnotizados, boquiabertos víamos, em Cinemascope colorido, as extensas pradarias do velho oeste, Sierra Madre e o Grand Canyon; templos gregos e romanos; selvas africanas; estupendos exercícios de Shao-Lin. Em um preto e branco saltitante e mudo, o suplício do Cristo na Sexta-Feira da Paixão... Depois de cruzarmos a sala de acesso, passando sobre um piso de ladrilhos vermelhos antiquíssimos, adentrávamos na grande sala de projeção, ainda iluminada suavemente, a cuja penumbra nos acostumávamos devagar . Nunca víamos os detalhes toscos, claro, para não perdermos o encanto. O piso era de um cimentado liso, a tela pouco luminosa , as cadeiras duras e ...

VEM SENTAR-TE COMIGO, LÍDIA, À BEIRA DO RIO - FERNANDO PESSOA

  Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos). Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em ...

LER RUBEM FONSECA

 Convido com veemência meus leitores para desfrutarmos da obra de Rubem Fonseca. Apenas como um aperitivo publico pequeno trecho de um conto dele, que li meditando, sorrindo e até mesmo gargalhando em alguns momentos. Imperdível! ************************************************** A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro Rubem Fonseca (in Romance Negro e outras histórias) “Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e povo estavam todos pervertidos.” (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro 1862-63) Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas; solvitur ambulando , diz para seus botões. No tempo em que trabalhava na companhia de águas e esgotos ele pensou em abandonar tudo para viver de escrever. Mas...

CRÔNICAS DE ABAETÉ DO TOCANTINS - 11

Imagem
O PETRÓLEO JÁ FOI NOSSO! Um fato histórico ainda muito vivo no imaginário coletivo d os abaeteenses - pelo menos daqueles que nasceram antes da virada do século! - é a chamada “praga das formigas”, que sucedeu ao espancamento de um sacerdote por populares. É uma história cheia de lances curiosos, que não se encerra nas formigas. Durante um bom tempo a cidade ficou sem padres, amaldiçoada que fora pelas autoridades eclesiásticas. Contam que quando algum padre passasse diante de Abaeté a bordo do navio da Linha do Tocantins, deveria, por ordem do arcebispo de Belém, virar-se de costas para estas terras e rogar alguma praga que sua santa mente fosse capaz de obrar naquele instante. Alguns, mais raivosos, decoravam maldições terríveis antes mesmo da viagem, longas e maléficas imprecações a serem vomitadas sobre a terra de Monteiro. Contam que certa vez um padre chegou morto a Cametá, tendo talvez infartado de ira (fúria, como se diz, envenena o coração...) durante a viagem, e entre seus p...